
Os leitores das Selecções não têm dúvidas. Os bombeiros são a classe profissional em quem mais confiam.
Ao longo do tempo, a humanidade foi enfrentando muitos problemas, principalmente no combate aos grandes incêndios. Estes, quando ocorriam, tornavam-se devastadores, pois muitos não podiam ser controlados e destruíam tudo o que encontravam pela frente.
O homem pré-histórico pôde observar que a água da chuva, ao cair, apagava o fogo, que naquele tempo era sobretudo causado por raios ou vulcões. Assim, ao longo dos séculos e em todo o mundo, a água sempre foi o principal meio de extinção de incêndios. Com o progresso das civilizações, o homem começou a organizar-se para prevenir e combater os incêndios. Uma das primeiras organizações de combate ao fogo na antiga Roma foi criada em 27 a.c. e a sua missão era o patrulhamento das ruas da cidade e a manutenção da ordem, a fim de prevenir a ocorrência de fogos.
A escassez de meios foi uma constante ao longo da história, e por isso a extinção de incêndios registou sempre muitas dificuldades, especialmente quando atingiam grandes proporções ou eram de difícil acesso.
Foi para tentar fazer frente a esse problema que em 872, em Oxford, na Inglaterra, se fez uma lei com vista a criar um toque de alerta, destinado a ser accionado sempre que houvesse qualquer indício de incêndio. Os toques de alerta serviram para reunir os meios que permitiam dar resposta às situações de emergência.
Desde cedo a comunicação revelou-se da maior importância. Atualmente, uma resposta eficaz implica uma estreita relação entre as comunicações e as operações de bombeiros. Com efeito, a correta utilização destes meios desempenha um papel crucial no serviço de socorro.
No ano de 1666 já existiam em Inglaterra brigadas de seguros contra incêndios. Nesse ano, após um incêndio que destruiu parte da cidade de Londres, as companhias de seguros uniram-se e começaram a formar-se brigadas particulares especializadas. Ter pessoas treinadas no combate aos incêndios é de extrema importância para se intervir de forma rápida e eficiente. A formação começou a ser cada vez mais valorizada e dirigida a todas as pessoas envolvidas, por forma a promover-se a aquisição das competências técnicas necessárias.
A criação de estruturas que coordenassem os mecanismos de intervenção e melhor se adaptassem à cultura das comunidades tornou-se vantajosa. Nesta área específica, além de se exigirem sólidas competências técnicas, tornou-se relevante que todos os elementos conheçam o ambiente que os rodeia, de modo a melhor se adaptarem e interagirem.
No ano de 1679, em Boston, nos Estados Unidos, na sequência de um incêndio de grandes proporções, foi criado o primeiro departamento profissional municipal contra incêndios. Em 1715, Boston já dispunha de seis corporações de bombeiros, e todas equipadas com as respetivas bombas de água.
Com o passar do tempo, houve necessidade de instituir um serviço de bombeiros mais profissional e organizado. Em 1853, na cidade de Cincinnati foi criada a primeira organização de bombeiros profissionais equipada com bombas a vapor, sendo estas transportadas por veículos puxados a cavalo.
A inclusão de elementos nos corpos de bombeiros com esta atividade como profissão permitiu uma melhor organização, uma vez que ela levou a que houvesse uma resposta mais rápida aos pedidos de socorro, especialmente nos períodos de maior dificuldade, como é o caso do per íodo diurno, em que a maior parte dos Voluntários se encontra a trabalhar.
Aquisição de equipamento moderno e adequado veio igualmente contribuir para melhores resultados no combate a incêndios.
Para melhorar a intervenção, houve necessidade de uniformizar técnicas, o que motivou o aparecimento de escolas capazes de responder a este desafio. As primeiras escolas de bombeiros foram criadas em 1889, na cidade de Boston, A divisão em áreas formativas resultou de uma reestruturação deste ensino.
Quanto. a Portugal, a história dos bombeiros remonta ao século. XIV, quando. D. Jo.ão. I, através da Carta Régia de 23 de agosto de 1395, promulgou a organização do Primeiro Serviço De Incêndios de Lisboa, ordenando:
«E que em caso. que se algum fogo levantasse, o que Deus não queira, que todos os carpinteiros e calafates venham àquele lugar, cada um com seu machado, para haverem de atalhar o dito fogo. E que outrossim todas as mulheres que ao dito fogo acudirem, tragam cada uma seu cântaro ou pote para acarretar água para apagar o dito fogo.»
O aproveitamento do maior número possível de recursos humanos foi a principal preocupação: daí a necessidade de incutir nas pessoas a ideia de que ajudar é um dever de todos. Tão importante como o recrutamento é a orientação para as tarefas mais apropriadas a cada um. Saliente-se que já naquele tempo havia uma preocupação com os métodos de extinção: por arrefecimento ou redução da temperatura, através da água, e pela remoção de combustível, através do corte de árvores e mato.
No Porto, os Serviços de Incêndio também funcionaram desde o século xv. A Câmara, numa reunião em 1513, decidiu «eleger diversos cidadãos para fiscalizar se os restantes moradores da cidade apagavam o lume das cozinhas à hora indicada pelo sino da noite».
A existência de uma intervenção preventiva junto da população é fundamental para evitar alguns incêndios. Atualmente, além de uma fiscalização eficaz, que cumpre um papel dissuasor, é importante considerar a existência de equipas multidisciplinares, com o objetivo de monitorizar e avaliar planos, programas, projetos ou simples intervenções, dado que estas podem promover uma real compreensão e uma redução do problema. Importa ainda acrescentar que uma educação direcionada para a prática de comportamentos adequados se tornou fundamental na redução do risco de incêndio.
Já em 1612, a Câmara do Porto ordenava «que fossem notificados os carpinteiros da cidade de que iriam receber machados e outras pessoas de que entrariam na posse de bicheiros, para que, havendo incêndios, acudissem a ele com toda a diligência».
No reinado de D. João IV, por volta de 1646, tentou-se introduzir em Lisboa o sistema usado em Paris, tendo o Senado aprovado a aquisição de diverso material e equipamento, e concedendo prerrogativas ao nível das remunerações e habitações.
Dispor do maior número possível de pessoas e munidas do equipamento mais adequado, continua a ser uma preocupação. A disponibilização do equipamento e a forma como este é gerido veio permitir que o combate aos fogos se efetuasse de forma mais organizada, com maior rapidez e segurança.
Os planos de intervenção em incêndios e a criação de incentivos com vista ao seu cumprimento vieram permitir melhores respostas. A instalação em Lisboa dos três primeiros «quartéis» foi decidida por D. Afonso VI, em 1678:
«O Senado ordenará, com toda a brevidade, que nesta cidade haja três armazéns [. .. ] e que estejam providos de todos os instrumentos que se julgarem necessários para se acudir aos incêndios, e escadas dobradas de altura competente, para que, com toda a prontidão, se possam remediar logo no princípio [ .. .].»
Com vista a uma melhor organização das intervenções, tornou-se premente a existência de instalações próprias. Estas apresentaram-se como um espaço de armazenamento de material do mais diverso, mas também como um ponto de concentração e preparação para o combate aos fogos.
A localização desses quartéis, decidida de forma estratégica, veio por sua vez proporcionar uma resposta mais rápida e eficaz no acesso a um maior número de localidades por todo o país.
Em 1681, a reorganização prosseguiu, com a chegada de Holanda de duas bombas e uma grande quantidade de baldes de couro, sendo distribuídos 50 por cada bairro. Os pedreiros, os carpinteiros e outros mesteres passaram a ser alistados para o combate aossinistros, ficando sujeitos a uma pena de prisão por cada incêndio em que não comparecessem. Nestes tempos, a necessidade de reunir o maior número possível de pessoas para fazer frente aos incêndios levou a que a ajuda, considerada como um dever cívico, se tornasse uma obrigação.
Em 1722, no reinado de D, João V, foi fundada no Porto a Companhia do Fogo, ou Companhia da Bomba, constituída por 100 «homens práticos», capazes de manobrar a «bomba, machados e fouces».
O facto de haver um conjunto de pessoas treinadas para manusear o equipamento veio permitir que as intervenções se processassem de forma mais rápida e eficiente, mas tornava-se necessário identificar a disponibilidade de recursos humanos e a sua capacidade técnica para fazer frente aos fogos, o que exigia o recenseamento de todos os bombeiros portugueses. Esta situação impôs-se pela necessidade de organizar todo o socorro.
Para alcançar melhores condições no combate aos incêndios, houve que adquirir mais e melhor equipamento. No ano de 1868, foram introduzidas as bombas a vapor, originando a obrigatoriedade de os proprietários instalarem bocas de incêndio nos prédios.
Apareceu também a escada Femandes, precursora da Magyrus, e foi instituída a classe de «sotas» - bombeiros permanentes, cuja denominação era atribuída aos capatazes dos antigos aguadeiros.
Em resposta à necessidade de criar estruturas de apoio no combate a fogos em edifícios urbanos, instalaram-se bocas de incêndio e hidrantes no exterior dos edifícios para o abastecimento das viaturas dos bombeiros. No interior dos edifícios, com base nos planos de emergência, existem as RIA (Redes de Incêndios Armadas), instaladas em colunas secas ou húmidas, que podem ser usadas pelos funcionários de empresas onde existam equipas de primeira intervenção, e que se destinam também a facilitar a intervenção dos bombeiros em caso de sinistro.
Os extintores constituem-se também como instrumentos simples de manusear, portáteis e eficientes para uma primeira intervenção. As escadas são mais um dos instrumentos de apoio à ação dos bombeiros, e hoje podemos encontrar dos mais diferentes tipos, tanto para acesso, como para salvamento. Importa também referir que a evolução constante na construção dos edifícios tem levado à permanente modernização dos equipamentos.
No final do século XIX, a necessidade da defesa civil de pessoas e bens da comunidade levou a que determinados grupos de cidadãos começassem a organizar-se em associações. Estas estruturas associativas locais sem fins lucrativos, que ainda subsistem, têm a finalidade de criar e manter os corpos de bombeiros. Porém, se elas eram inicialmente de cariz voluntário (corpos de bombeiros voluntários), foram evoluindo naturalmente, passando a incluir com o tempo bombeiros profissionais, criando-se assim corpos de bombeiros mistos, que visam responder melhor às necessidades de socorro. Estas entidades são capazes de uma maior autos-sustentabilidade e são aquelas que, em momentos de crise, conseguem mais facilmente adaptar-se, quando comparadas com as entidades exclusivamente profissionais.
A dificuldade em conseguir que os corpos de bombeiros constituídos exclusivamente por voluntários respondessem com rapidez e eficiência levou a incluir no quadro bombeiros permanentes, especialmente no período diurno, em que a maior parte dos voluntários se encontra fora do quartel, no desempenho da sua atividade profissional.
Para se alcançar uma resposta de qualidade no socorro e, ao mesmo tempo, conseguir uma racionalização dos custos, é importante considerar diversos fatores, entre os quais devem ser tidos em conta a organização do socorro, as estratégias de resposta em face dos riscos identificados, a promoção do voluntariado, o tipo de equipamento utilizado, ou a formação e a integração dos elementos na prestação do socorro.
A história ensina-nos que o homem não teria alcançado o possível se muitas vezes não tivesse tentado o impossível, e que muito do que se conseguiu se deve ao altruísmo e à capacidade de sacrifício e de humildade do ser humano.
Através dos factos passados podemos compreender o presente e perspetivar o futuro, sem nunca esquecer que o futuro será o que nele projetarmos.
By Luís Miguel Afonso Andrade, subchefe equiparado na Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários Madeirenses
Fonte: http://www.seleccoes.pt/